Solitária, mas acompanhada

Artigo publicado em: Sep 6, 2023 Autor do artigo: Equipe Allcatrazes
Solitária, mas acompanhada
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Por Catarina Weck Glashester

 

A coragem começa em partir; o grande desafio é se conhecer

 

Oi, eu sou a Bis. Andei um tempo sumida daqui, então prazer aos que ainda não me conhecem e um olá caloroso aos que já me leram por aqui. Vim contar mais uma história,mas dessa vez a história não é minha. Serei uma mera narradora acompanhando a jornada de uma personagem que eu já tive o prazer de introduzir por aqui. De novo vim falar com vocês sobre a Marina. Lembram dela?

 

Regata Mini Fastnet - 600 milhas (1.111 km) entre França, Inglaterra e Irlanda

 

Velejadora uns bons anos e aventureira de carteirinha, Marina Bidoia embarcou em junho para a Europa para correr uma regata de 3 dias na classe Mini, um pequeno barco de 6.5 metros, mas acabou estendendo sua estadia por 3 meses, o máximo de tempo que conseguiu ficar por lá com o visto de turista. Com certeza é uma experiência única a gente se encontrar tão longe de casa. Marina sai dessa regata com parcerias fechadas para outras travessias e assim as 600 milhas náuticas que ela havia se preparado para percorrer nessa viagem se tornaram 1700 milhas, o equivalente a 3149 km, de muita experiência e de encontros com pessoas novas que eram apaixonadas pelo mesmo que ela.

 

Velejando com a sua dupla Jonas Gomes | Confira como foi essa aventura clicando aqui

 

Na verdade, foi assim que a Allcatrazes conheceu a Marina. 2 anos atrás, corríamos a Semana de Vela de Ilhabela, uma das mais tradicionais competições da vela nacional. Estávamos no mesmo barco para correr a regata Alcatrazes por Boreste, que contorna o arquipélago de Alcatrazes e a qual, anos antes, havia inspirado a criação do nome da marca. Hoje, venho comunicar a vocês que estaremos junto com a Marina em mais uma aventura.

 

A regata na Europa foi dura. Ao invés de 3 dias a bordo, devido às condições climáticas, foram 7 dias de pouco vento, boiando na água com dias e noites de temperaturas baixas. Em uma competição de vela de oceano, o velejador precisa percorrer um percurso pré-determinado aceitando e sabendo se adaptar às condições climáticas mais adversas que possam cruzar o seu caminho. Ao chegar em terra, a sensação que tomouconta da Marina era de motivação. Depois de enfrentar essa situação, ter se tornado mais experiente, conhecido melhor o barco, os limites do seu corpo e mente, ela se sentiu pronta para um próximo desafio. Aproveitou suas novas conexões, acumulou milhas navegadas e voltou para o Brasil já se preparando para o próximo destino.

 

Por que acompanharemos a Marina? Arquiteta recém formada, apesar de ser essa desbravadora incurável, a Ma tem uma vida normal por trás de tudo isso. Trabalha remoto, se dedica a diferentes propósitos e leva uma rotina atarefada e difícil de balancear. É gente como a gente, e assim como nós, possui um ímpeto de se desafiar, de chegar o mais longe que puder, de ter aquele momento indescritível de se sentir capaz de fazer qualquer coisa. Marina é uma de nós, sempre em movimento, colecionando memórias e, principalmente, nos inspirando a sair, aos poucos, da nossa zona de conforto.

 
Atualização 1 - 14/09/23
 

Preparação para a primeira perna e reflexões sobre a jornada até aqui

 

Ma chegou em Salvador dia 10, vindo de São Paulo de avião, e nos últimos 4 dias deu algumas entrevistas na rádio e palestras, porém, o mais importante de tudo, é que ela conheceu o barco em que iria navegar. O barco foi cedido para o projeto, rebatizado temporariamente como "Minina", e  zarpou para Recife, em seu grande desafio, a primeira navegação solo.

 

Distrito Naval de Salvador; Barco "Minina" e imagem de satélite da navegação da Marina (esq. para dir.)

Clique aqui para acompanhar a Marina em tempo real

 

Não pense que uma aventura dessas é para quem tem todas as certezas e respostas do mundo. Ma compartilhou com a gente durante a palestra no Museu do Mar algumas de suas reflexões - perguntas ainda sem resposta - que ela busca entender melhor durante essa travessia. "No meio do caminho tinha uma pedra". De acordo com Marina, as pedras no seu caminho são o que a fazem querer ir mais longe. Contornar pedras, ilhas, boias, marcas e somar milhas navegadas é o que realmente a encanta, e Fernando de Noronha é uma bela pedra nesse caminho. Depois de ultrapassar um limite, ao expandir a sua zona de conforto, é difícil voltar atrás algumas casas e fazer o que se fazia antes, com a mesma naturalidade.

 

Marina a bordo de "Minina", onde vai fazer sua travessia em solitário

 

Marina obteve sua licença de capitã amadora há alguns anos, tornando-se, inclusive, a capitã mais jovem do país. Mas percebeu que o simples papel que a autoriza a comandaruma embarcação está a anos-luz de distância da experiência de realmente ser uma comandante. Então, ela começou esta jornada com o intuito de comandar, pela primeira vez, a sua própria tripulação que, por enquanto, consistirá apenas nela mesma,sendo responsável tanto pela tomada de decisões, quanto pelos possíveis bônus e ônus causados pelas escolhas.

 

De forma irônica, Marina lembra que não gostou de estar sozinha em um pequeno barco quando começou a velejar na classe Optimist, ainda criança.  impressionante como a vida nos surpreende ao nos levar por caminhos inesperados, Mas eu não podia recusar", explica. Ela abraçou as oportunidades que surgiram em seu caminho e realizou feitos incríveis até agora, chegando ao seu próximo desafio: competir na Refeno emsolitário.

 

Estaremos acompanhando de perto a jornada de Marina, mas não apenas a dela, porque a Allcatrazes tem a honra de anunciar que é a patrocinadora oficial da Refeno 2023. Isso mesmo, agora fazemos parte dessa emocionante história, estaremos navegando juntos de todos os participantes dessa regata, e mal podemos esperar pela chegada do pessoal em Recife, para que seja dado o start em mais uma memorável edição desse evento.

 

Allcatrazes é patrocinadora oficial da REFENO 2023 | Imagem via Refeno

 

Confira um trecho das informações enviada pela Marina pra gente via satélite:

 

Ontem 14/09 às 13:30 - Minina saiu rumo a Recife!

 

Dia intenso de arrumação do barco

Abastecimento de alimentos

Farmácia abastecida

Testes de eletrônicos e GPS

 

Check list de viagem para 4 a 5 dias de navegação intensa em alto mar sem parar até Recife

 

Dormir de 20 em 20 min

Cozinhar

Sem banhos

 

Ah ela avisou que os bordos pra fora estão sendo bons para aproveitar e descansar.

Disse tbm que ela e o barco estão se entendendo bem!

 

Agora o desafio iniciou!!

Vamos acompanhar!

Boa noite e amanhã mando mais notícias

 
Atualização 2 - 15/09/23
 

Novas mensagens via satélite:

 

Oi, perto de terra com um pouco de sinal! Tudo ótimo a bordo, mantendo o barco com velocidade e fazendo o possível no ângulo! Mas o vento já está rondando, si tô que esse bordo vai render! Abraços a todos!

 

22h de navegação, acabei de completar as primeiras 100 milhas em solitário

 
 
Atualização 3 - 18/09/23
 

Aviso de chegada: Marina aportou em Recife!

 

425 milhas e 85 horas depois de partir, Minina chega a Recife tendo completado asua primeira travessia em solitário. Às 2h da madrugada de hoje, segunda feira dia 18, Ma chegou em terra firme.

 

Ma conta que a maior dificuldade desse trajeto foi aprender a controlar o uso das baterias para poder contar com o recurso do piloto automático, muito importante na navegação em solitário. Felizmente, esse foi o único problema técnico enfrentado ao longo do percurso, mas Marina teve que lidar com algumas outras situações desafiadoras, como foi o caso do encontro com os ventos pirajás, nuvens baixas que trazem ventos acelerados e chuvas, precisando prezar pela segurança, dela e do barco, e navegar de maneira mais conservadora.

 

Tudo isso é recompensado ao estar velejando a 7.3 nós - uma boa média - e se deparar com um cardume de peixes voadores a acompanhando, animais pequenose rápidos, como era o caso de Minina naquele bordo, pequena e rápida :)

 

Os próximos passos consistem em organizar o barco, limpar tudo, entender melhor ofuncionamento das baterias para já estar preparada para a Refeno, que larga este sábadodia 23. Estaremos junto contigo, Marina!

 
Atualização 4 - 20/09
 

Um relato da primeira perna da viagem. Travessia de Salvador a Recife.

 

O vento foi favorável durante praticamente todas as 425 milhas navegadas, e o mar esteve com ondulações entre 1,5 e 2m. Essas foram as condições das 85 horas a bordo de sua primeira travessia como comandante de uma embarcação. Foi o momento de se dar conta de que ela realmente era responsável por tudo. É bom saber velejar, botar o barco para andar, fazer a trimagem fina da embarcação, mas também é necessário entender de baterias, motores, placas solares entre outros mil conhecimentos que serão colocados à prova a bordo.

 
 

Ma teve um problema de gerenciamento de baterias. As placas não estavam carregando suficientemente as baterias da embarcação, complicando o uso do piloto automático. Foi necessário fazer o racionamento dessa energia, timonear o barco mais do que o esperado e desligar os equipamentos durante o dia, chegando à terra com 10.9 de bateria, um nível super baixo. Tudo correu bem e a embarcação não chegou a dar blackout, mas isso significou dormir de 5 em 5 minutos ao invés de 20 em20, conforme era previsto.

 

Além do problema com as baterias, chegando a 100 milhas navegadas, Marina teve de enfrentar uma sequência de pirajás. Pirajás, em resumo, são pancadas de chuva que geram rajadas de vento, conhecidos por bagunçar as condições de vento atuais. Por mais que você saiba que será curto, é sempre um momento de tensão a bordo. Acaba que o barco fica à mercê do vento, que estava levando Marina para Leste, quando ela precisava seguir rumo a Nordeste. O primeiro contato foi um pouco chocante, mas Ma foi rapidamente pegando casca e aprendendo a lidar com os próximos pirajás, que pelo que ela conta, não foram poucos e chegaram a atingir rajadas de 25 nós.

 

Perguntei à Marina como ela se sentiu a bordo, se conseguiu se sentir competente.Para mim a melhor resposta dela foi:

 
"Não tinha nada a bordo que eu não soubesse fazer, ou que eu não fosse capaz de inventar uma solução que resolvesse o dito problema".
 

O nervosismo da responsabilidade da tomada de decisões foi substituído pela tranquilidade de poder confiar em si mesma. Ao avistar baleias brincando longe da costa, Marina se dá conta de que está deixando a terra para trás. Após passar por alguns pirajás, percebe o quanto se sente competente. É surpreendente o que podemos realizar quando somos colocados à prova e nos questionamos "calma, em que momento eu aprendi a fazer isso?". A resposta que iremos nos deparar provavelmente consistirá em: aqui e agora. Eu acabei de precisar me virar, e me virei. Poucas sensações se igualam a de se sentir capaz.

 
 

Pode parecer bobagem para alguns, mas eu sinto que enquanto mulheres nos questionamos de maneira mais firme sobre nossas habilidades. Entendo o sentimento da Marina de que não nos visualizamos sendo capazes de realizar coisas extraordinárias antes de, de fato, concretizá-las. O que mais me marcou no meu papo com aMa foi o seguinte relato:

 
"Na hora em que cheguei e baixei a vela dentro do porto de Recife, eu olhei pra trás e pensei 'Caramba, olha o que eu fiz'. Acho que ainda não caiu a ficha do que eu acabei de fazer, mas é muito louco pensar que tinha eu nesse barco, sabe? E que chegou. E que não quebrou nada. E que eu não me machuquei. Sabe? Eu sabia que seria uma experiência transformadora, mas não achei que seria tanto".
 

Me lembrei das minhas experiências transformadoras que me fizeram acreditar que euposso chegar mais longe do que me disseram que eu poderia. Obrigada por isso, Ma.

 
Atualização 5 - 25/09
 

Regata Internacional Recife - Fernando de Noronha: REFENO

Informações recebidas por mensagens da Marina via InReach! Acompanhe o Minina com a gente 😄

 

Sábado - 18:00

Marina esteve no leme para ganhar barlavento, conseguiu comer e beber líquidos.

Vai começar os turnos de descanso a partir de agora.

Pegou 2 pirajás, os enfrentou bem, mas resolveu colocar a 1ª forra de rizo. Pra ter tranquilidade a noite.

A velocidade média se mantém.

Ela tá animada e tranquila, pela previsão está tudo normal.

 
  • A partir de 12h de regata os mais rápidos se destacam do grupo. E após 24h o pelotão se divide em 3 a 4 grupos de acordo com a velocidade média. O vento deu uma diminuída e os grandes e pesados baixaram a velocidade para 3.8 a 4.2 nós

 

Domingo - 1:15

Boa madrugada

Marina segue bem com velocidade oscilando de 4.8 a 5.7 nós

Está ganhando barlavento

O vento está na casa de 17 nós

Ela vai descansar as próximas 2h em intervalos de 15 minutos.

Muitos barcos próximos.

Tudo bem a bordo.

Amanhã de manhã mando mais notícias.

 

Domingo - 9:40

Bom dia

Tudo bem a bordo

Ela dormiu um pouco a noite, e quando tinha pirajás ela ia para o leme.

A velocidade do barco está boa.

Já percorreu um pouco mais de 1/3 do trajeto

 

Domingo - 00:30

A última mensagem foi:

"Saí agora e a noite está um presente, mar tranquilo, vento a favor, lua e estrelas, quase sem nuvens!"

Boa madrugada

Informes da Marina

Ela está orçando um pouco para ganhar barlavento, a velocidade média aumentou.

Avisou que o ETA* está melhorando. Já passou mais 4 barcos entre 18h e 24h.

Está descansando em pequenos intervalos.

Esse vento de SE 16 a 23 nós vai permanecer até umas 10h.

O mar baixou.

O humor está bom, embora as noites sejam mais cansativas.

Mais notícias amanhã às 7h

 

*ETA - Estimated time of arrival (horário previsto de chegada)

 

Segunda - 8:00

Bom dia

A última noite já passou.

Está tudo bem a bordo

Ela está cuidando do rumo do rumo devido a correnteza de E (leste) de 1,8 nós

O mar melhorou muito

Os alísios cumprindo seu dever de soprar constante.

ETA pro início da noite

Às 13h terei mais notícias!

 

Segunda - 12:00

Faltam menos de 30 milhas pra Sapata.

Vento de alheta e com todos os panos içados.

Velocidade entre 5.4 e 6 nós

ETA fim da tarde.

 

Segunda - 14:50

Faltam 18 milhas pra Sapata

ETA entre 17:00 e 18:00 hora de Brasília

 
 

Segunda - 17:46

 

Buzina cantou para Minina em Fernando de Noronha! Marina ultrapassou a linhade chegada da RENEFO às 17:46:00 de hoje (25/09), ficando em lugar na categoria aberta. Parabéns por mais esse desafio vencido! É uma honra fazer parte dessa história.

 

Marina completou a REFENO, a bordo de MININA, às 17:46 do dia 25/09/23

 
Atualização 6 - 26/09
 

O cenário é indescritível. Mar de cor impressionante, golfinhos pelo caminho, aves marinhas, peixes voadores, uma velejada realmente incrível. A aproximação de Fernandode Noronha é uma sensação única. Na saída do píer para o início da regata, indo fazer ocheck in do barco, Ma conta que as pessoas gritavam do início ao final do canal do Marco Zero em Recife, demonstrando total apoio a essa jovem aventureira iniciando a sua jornada em solitário.

 

Marina fazendo os últimos ajustes; e Minina na largada da REFENO 2023, no Marco Zero, em Recife.

 

Durante toda a regata, o vento se manteve constante acima de 10 nós, com rajadas de até 17, chegando à marca de 25 nos pirajás. Marina, já mais safa do que antes, agora lidou ainda melhor com os pirajás e conseguiu seguir no rumo desejado. Mas o perrengue máximo da viagem foi que, ao sair do píer, o barco sofreu uma batidinha na laterale, de primeira, Marina não viu. Passadas 16 horas da regata, ela começa a perceber que o barco está com água no convés. Procurou por tudo até achar um pequeno trincadinho responsável por um grande estrago. Realocou todos os pesos do barco para o bordo oposto, de maneira que trincado ficasse acima da linha d'água, e fez um remendo com silver tape, o recurso que tinha disponível no momento. A partir desse momento, foi necessário tocar o barco com maior tranquilidade, sem adernar tanto, perdendo velocidade, mas deixando a batida ficar fora da linha d'água, o máximo possível.

 
 
 

50 horas de regata adentro, Marina se aproxima da chegada e avista outro veleiro na frente dela. Como ela havia feito o trajeto bem mais lento do que o esperado, ela imaginou que eles fossem os últimos dois barcos a chegar na regata.

 
"Comecei a trimar a vela como se estivesse correndo um barla sota de Snipe, eu ia passar aquele barco e, pelo menos, chegar em penúltimo lugar. Peguei rajada, fui pra cá, voltei pra e na hora que eu estava ultrapassando o barco, a tripulação solta tudo e começa a aplaudir. tomei consciência de que o que eu estava fazendo era muito mais do que uma regata".
 

E mal sabia ela que tinha sim mais gente para chegar na sequência.

 
 

Chegamos em Fernando de Noronha! Foram 52h, com velocidade média de 5,5 a 6 nós, entre 10 e 11 km/h. "Fui uma comandante muito gentil comigo". Sendo comandante solo, Ma conseguiu aprender a ser paciente em momentos de tensão e stress. De nada adianta o desespero, gritaria, e surto se o que precisamos é manter a calma e resolver o problema. Assim, conhecendo cada vez mais a si mesma, entrando em sintonia com o seu entorno, entendendo a lidar com imprevistos e, o mais importante de tudo, aproveitando o caminho que percorremos e apreciando cada milha superada, Marina e Minina finalizam sua participação na 34ª Refeno. Agora é hora de voltar para casa.

 
Atualização 7 - Final de viagem: a volta pra casa
 

Depois de mais de um mês no mar, Marina estava pronta para voltar. Faltavam 700 milhas a serem navegadas e mais um avião de Salvador a São Paulo. Dessa vez ela não estaria sozinha, pois pode contar com a companhia de seu pai. Porém, eles não imaginavam que a última perna da velejada teria mais etapas do que o programado. A ideia inicial era sair de Noronha direto para Salvador, fazendo de uma vez as 700 milhas entre as duas cidades, mas esse plano logo precisou ser modificado. A condição que deveria ser de um través folgado, virou uma orça folgada que, no vento aparente, já se tratava de uma orçaapertadíssima. Assim, foram 62 horas para fazer as 300 milhas entre Noronha e Recife, o que os fez decidir por fazer uma parada. Cansados, mas sem nenhuma avariano barco, ficaram um dia, literalmente, recarregando as baterias e organizando o barco.

 
 

Marina se emociona ao contar sobre a presença do pai a bordo, oficialmente seu primeiro tripulante, despendeu todo o esforço necessário para auxiliar a sua comandante. Com certeza são poucas as pessoas a poderem afirmar que o primeiro tripulante de sua embarcação foi o próprio pai, mas ter mais alguém a bordo não deixa de ser uma responsabilidade extra. Sozinha, Ma entendeu como ela mesma funcionava. Entendeu como reagia a cada situação e sabia que conseguiria se virar nas mais diversas situações, mas com uma tripulação, ela agora era responsável pela segurança de uma outra pessoa, e isso foi mais um marco na sua evolução.

 

Dali de Recife rumo a Salvador, mais 400 milhas de través os esperavam, e a previsão era de vento fraco. Para manter o rumo desejado da embarcação, velejaram praticamente de popa raso e, à noite, o vento foi aumentando. Enquanto isso, o piloto automático começou a não funcionar muito bem e o barco teve que ser timoneado. Durante uma das trocas de turno, Marina enxergou um cabo pendurado pelo barco que, de início parecia com o cabo de energia das placas solares, mas logo ela se deu conta de que se tratava do estai de força do brandal de bombordo, um reforço estrutural do mastro. Nesse momento, nossa comandante estava diante de um problema sério. O mar estava grande, picado, com o barco atravessando. Do jeito que estavam, com um estai de força a menos, não seria possível seguir viagem até Salvador. Providenciaram um remendo e trataram de seguir rumo a Aracaju, o porto mais próximo no rumo em que estavam.

 
 

Marina havia ouvido relatos e conselhos de que não seguisse, sob nenhuma hipótese, para Aracajú, que seria mais prudente dar um jeito de chegar a Salvador. Dessavez não teria como. Com o mastro do jeito que estava, o negócio era parar o quanto antes fosse possível. Com um excelente auxílio do pessoal do Iate Clube de Aracaju, Marina aprendeu a entrar na barra do rio e assim fez uma chegada tranquila. Com o novo estaiamento no lugar, e um novo tripulante que veio junto com o material, o marinheiro do barco se juntou a Marina e seu pai nas últimas 160 milhas. Marina frisa o fato de que Aracaju é sim uma opção de parada caso necessário. Apesar dos acidentes já registrados e de se tratar sim de uma chegada complicada, é importante que ela seja vista como uma parada viável, pelo menos em situações de emergência como essa.

 

O início da última perna foi confortável, pelo menos por umas 12h das apenas 24h queos separavam de Salvador. Ao estarem, finalmente e pela última vez na viagem, avistando terra, o vento morreu. Boiando com 2 nós de vento, os três se renderam ao motor para finalizar logo a viagem.

 

Depois de jurar pela milionésima vez que não pisaria mais em um barco, Marina pisaem terra e se pergunta: "Qual a próxima velejada?"

 
 

Foi um prazer contar a história da Marina aqui na Allcatrazes. Fiquem ligados, quecom certeza teremos mais conteúdo como esses por aqui. Até a próxima! - Bis

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